Mais do que moda!

‘O Discípulo’

Por Paulo Ricardo

Um filme com uma narrativa naturalista, quase documental, e ainda assim completamente sensorial – até mesmo hipnótico, para quem se deixar levar pelo cinema de imersão proposto pelo jovem diretor indiano Chaitanya Tamhane, que já no seu segundo longa imprime uma marca autoral.

A história do jovem vocalista de raga (uma música clássica da Índia) Sharad Nerulkar (interpretado com bastante intensidade nas entrelinhas dos seus silêncios pelo ator Aditya Modak), que usa a disciplina do canto como instrumento de busca espiritual e exercício de excelência artística, é contada como uma jornada de encontro consigo mesmo e de descobertas.
“sempre procuramos quem somos no contexto cultural contemporâneo”.
Sharad, apesar da sua insegurança sobre a certeza de alcançar uma excelência – o fantasma do fracasso do pai o apavora – sabe que não cabe nessa “contemporaneidade”.

A dúvida parece ser sua companheira constante, a despeito de sua obstinação em seguir adiante. Mas e se tudo que ele perseguiu durante a vida – o filme cobre épocas distintas desde sua infância até a idade madura – tiver sido um mito? Maai, a guru que ele segue e que dela só temos contato através de suas palestras gravadas que ele ouve constantemente (aqui as sequências mais incrivelmente chapantes dele em sua moto filmadas em solene câmera lenta enquanto ouvimos em off a voz trêmula da velha guru) adverte: 

“…a técnica pode ser ensinada a verdade não .Quando você encontrar a verdade precisará de grande coragem para encará-la. Porque a verdade geralmente é feia”.

Na sequência final Sharad parece ter visto, como num espelho, a resposta da questão do que marcaria a excelência da arte, se a simplicidade ou a rígida disciplina, ou talvez apenas tenha aumentado suas dúvidas sobre essa questão tão particular e ao mesmo tempo universal.

O filme está disponível na Netflix. #FicaEmCasa acende um incenso e mergulha nessa jornada. 

‘O Discípulo’
‘O Discípulo’
‘O Discípulo’

Fotos: Reprodução.

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