Por Letícia Santana
Na última semana (21/01 a 24/01), aconteceu em Paris a temporada de alta-costura de primavera-verão 2019. Diante de um momento no qual é discutido se ainda de fato existe o haute couture, é necessário prestar atenção e analisar com criticidade cada coleção apresentada. Nas passarelas, percebe-se que o cuidado com o artesanal permanece e a vontade de fazer uma moda que não seja para o mercado de massa ainda respira. Confira os highlights:

Highlights do Haute Couture – Spring 2019
Iris Van Herpen é provavelmente o melhor exemplo de como fazer alta-costura em 2019. A designer holandesa ressignifica o conceito tradicional e antigo desse setor da moda, injetando uma sensibilidade jovem e tecnológica e, assim, criando um laço de identificação com a consumidora. O seu trabalho único, feito a partir da impressão 3D, rende imagens preciosas das roupas que, em movimento, parecem flutuar. Nessa coleção, Iris se inspirou nos avanços da engenharia de DNA e de híbridos humano-animal, explorando as camadas, acabamentos em viés e plissados. Para a cartela de cores é feita uma brincadeira entre diferentes tons em degradê, construindo uma estética com efeito tridimensional. É a pureza da moda na sua forma mais inventiva e criativa.

Highlights do Haute Couture – Spring 2019
A Dior fez da passarela um circo. A partir de referências do trabalho de Pablo Picasso e Cindy Sherman, Maria Grazia Chiuri resgatou o apreço de Christian Dior pelo universo circense, juntando uma estética performática com a alfaiataria. Depois de trazer bailarinos contorcionistas no último desfile, desta vez a diretora criativa trouxe o grupo feminino de acrobacia Mimbre, que dançava enquanto a coleção era apresentada. Sobre a possibilidade da performance tirar a atenção da roupa, Chiuri afirmou: “Eu acho que você tem que dar o seu sonho, dar emoção. Eu quero me juntar com outras equipes, outros artistas que façam outras coisas”. Na passarela, predominam claras referências aos elementos clássicos do imaginário do circo, como mangas bufantes, formas geométricas, arabescos e o uso do vermelho. A narrativa construída parece bastante similar a do desfile anterior, visto que em ambas a coleção divide a atenção com a performance. A diferença é que desta vez as peças são fruto de um trabalho artesanal de meses e meses.

Highlights do Haute Couture – Spring 2019
A Valentino, por sua vez, mostrou como equilibrar o luxo e o contemporâneo. A inspiração partiu de uma das imagens mais icônicas da alta-costura: a foto de Cecil Beaton, em 1948, de um grupo de mulheres (todas brancas) prontas para um grande evento usando luxuosos vestidos de Charles James. Essa imagem foi recentemente enquadrada no escritório de Pierpaolo Piccioli ao lado de uma outra foto que mostra apenas mulheres negras prontas para uma festa, porém vestidas de forma bem menos extravagante. “E se essas mulheres”, o diretor criativo falou apontando para a segunda foto, “estivessem vestidas como essas mulheres [da imagem de Beaton]?”. E assim nasceu o conceito da coleção que foi apresentada por um casting formado majoritariamente por mulheres negras. O poder e força transparece a partir de cores vibrantes, silhuetas dramáticas e modelagens amplas. Apesar da coleção ter sido pontuada como uma alta-costura moderna, Piccioli afirmou: “Não acredito na modernização da alta-costura. Alta-costura tem que ser alta-costura, mas você pode olhar de uma maneira diferente”.
A alta-costura tem uma das propostas mais sedutoras da indústria da moda. A opulência, exclusividade e minúcia no artesanato encantam e esse encantamento jamais pode ser deixado de lado. Porém, trazer formas mais novas de manter a tradição é essencial para que o haute couture continue inspirando.
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Fotos: Reprodução.