Mais do que moda!

A rua da vergonha

Por Paulo Ricardo 

Um filme da época clássica do cinema japonês que precisaria ser (re)descoberto e trazido para enriquecer um debate ainda atual e cheio de camadas distintas, é o poderoso ‘A rua da vergonha’, de Kenji Mizoguchi – o medonho título internacional para ‘akasen chitai’, algo como ‘A zona (ou o bairro) da linha vermelha’, já trazia embutido o preconceito que carrega a prostituição feminina.

As agruras da experiência da mulher no Japão patriarcal foram uma constante preocupação do cinema do mestre, que por isso recebeu o título de ‘um cineasta feminista’. Realizado enquanto se discutia no parlamento japonês uma lei anti-prostituição (aprovada pouco depois da estreia do filme), a discussão política, claro, ecoa na trama. Mas, longe de ser o que a se poderia chamar de filme-denúncia sobre os horrores do mundo da prostituição, na verdade expõe a sua ligação com a pobreza, mostra as diferentes formas de exploração feminina e deixa claro que esta exploração não está apenas na prostituição – o marido, o pai, o filho, o dono do bordel e o Estado fazem parte de um círculo machista que mantém a mulher como presa.

No bordel chamado ‘Terra dos Sonhos’ somos convidados a conhecer a história de 5 mulheres prostitutas. Yumeko é a sonhadora que deseja abandonar o bordel e viver ao lado do seu filho,. Yorie é a que deseja se casar com o cliente que prometeu amor e um lar. Já Hanae é a que sustenta o filho e o marido tuberculoso e desempregado, Yasumi economiza e empresta dinheiro com altos juros com objetivo de tornar-se dona do seu próprio negócio, enquanto Miki é a rebelde audaciosa e ocidentalizada. São dramas pessoais travados por mulheres fortes.

Mizoguchi não propõe soluções, nem tampouco apregoa algum tipo de moralismo. A imagem que fecha o filme e também a sua obra – já que esse foi seu último trabalho – é de um desespero melancólico e assustador: mais uma jovem sendo iniciada na teia desse sistema, o que mostra que o debate não se encerra aqui.

Tem uma cópia em ótimo estado no youtube. #FicaEmCasa e assiste.

A rua da vergonha
A rua da vergonha
A rua da vergonha

Fotos: Reprodução.

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